Peristória

Érica chega da faculdade cansada e faminta só para constatar que seu marido já dorme, frente à TV. Mais uma vez ele esqueceu as redações a corrigir de seus alunos espalhadas pela mesa, e ela precisa afastar o amontoado antes de pousar o  prato aquecido no microondas.

Suas emoções fumaçam tanto quanto o feijão que come, e anseia para brigar com o marido todos os sapos que teve que engolir da coordenadora, que por alguma inclinação vingativa tinha designado mais uma turma para qual ela teria que ministrar uma matéria que não era da sua área.

Os olhos distraem-se, quase sem perceber, na caligrafia esforçada do garoto do terceiro ano que desenhava uma descrição de uma aula de matemática em trinta linhas. As redações alternam-se no topo do monte, à medida em que Érica descobre que a proposta de redação passada por Pedro a seus alunos era a de um texto – de forma a escolher – sobre a aula anterior, que havia sido de matemática.

Entre poemas, crônicas, descrições e até uma cópia de correção de exercícios, a curiosidade de historiadora é despertada. E ela já está de caneta empunhe traçando esquema sobre a aula que nem presenciou.

Pelos sapatos de marca percebidos por uma menina chamada Luciana, permite-se dissertar acerca do quanto a escola valoriza o trabalho dos empregados, e segue no esboço de uma análise da dinâmica financeira da comunidade escolar.

Érica sabe o assunto abordado e tem material suficiente para imaginar como tenha decorrido a aula, ousaria até um panorama sobre a recepção do conteúdo pelos alunos e o interesse deles. Material mais que suficiente para ela própria discursar sobre o ocorrido, e é o que ela faz, levada a avançar madrugada adentro tecendo redes de sentidos e significações com base em suas fontes.

***

Essa parábola fala da construção de um mundo de significações sobre o passado com base em fontes por um sujeito histórico e será o fio condutor de uma série de posts na qual pretendo abordar um pouco da problemática da história. =)

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1 comentário

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