O Passado Imaginário

Alguns dias atrás observamos Érica analisar redações sobre uma aula e, assim, escrever ela própria o seu relato.

Como é  historiadora astuta, uma coisa que podemos dizer é que possivelmente o texto da professora – que não assistiu à aula de matemática – seja mais profundo e abrangente que o texto negativamente tendencioso do aluno que não gosta da matéria e presenciou o ocorrido. Isso parece óbvio, mas… A pergunta que devemos nos fazer então é:  até que ponto a imagem do passado tecida pela professora, apesar da verossimilança, da persuasão e da lógica, corresponde com o evento verdadeiramente ocorrido?

Passemos então, um paralelo mais explícito com a História, antes de prosseguir.  Por exemplo, o “conhecimento acadêmico”, com toda a certeza, sabe coisas sobre os gregos antigos que os próprios gregos ignoravam, por estarem imersos em seu processo histórico. Entretanto, isso não significa que o que a comunidade acadêmica diga dos gregos é a verdade sobre ele, de modo algum. Essa pequena observação faz com que história não possa ser classificada como ciência, e para explicar melhor isso vejamos alguns pontos.

A barreira epistemológica

Os gregos estavam imersos em seu tempo, nós estamos distantes. E se estamos distanciados, nossa visão privilegiada permite um conhecimento verdadeiro e objetivo daquele tempo, certo?

Errado, nada poderia estar mais errado e por, pelo menos, dois motivos. Primeiro, aquilo que podemos dizer sobre os gregos tem base em documentos e resquícios que jamais nos conseguirão fornecer todos os dados do que acontecia naquela época, de modo que nunca teremos acesso ao passado diretamente, somente através de relatos limitados, e por mais que desenvolvam-se métodos de leitura de fonte, isso representa uma perda irrecuperável de informação. E assim, a professora não saberá de coisas que os alunos sabiam, e a academia não saberá de coisas que os gregos antigos sabiam.

O segundo motivo é que aquilo que dizemos do passado está indissociavelmente ligado à nossa subjetividade. Os significados que buscamos na história respondem às nossas questões; são perspectivas, e por definição, deformantes. De modo que é preciso frisar que todo o livro de história não nos apresenta uma verdade/realidade. Caso fosse a realidade em si – viva e incapturável – bastariam “nossos olhos” para ver. Não, livros não nos apresentam a verdade, mas um mundo virtual, imaginário, onde se encontra a “verdade” necessariamente partida e sob pesada lente interpretativa – o que é, sem questionamento, uma distorção.

Jamais cognosceremos de fato o passado pela historiografia, e o historiador nada mais faz do que tentar se aproximar e tentar furtar algo à barreira epistemológica. Se esse furto é bem feito ou não, os historiadores que avaliarão a si mesmos.


Ciência não, literatura, por favor!

Essa avaliação que os historiadores fazem sobre si mesmos é um julgamento arbitrário, certo, baseado na corrente visão consensual sobre a realidade – que está afastada da realidade. Mas é o que difere Clio das outras musas.

Em nenhum momento, deve-se notar, foi definida a história como a “ciência que estuda o passado”, mas como um discurso sobre o passado. Isso porque essa ilusão de ciência da história já caiu por terra, e há quem localize – causando frisson e objeção nos historiadores – a história como um ramo da narratologia, uma espécie de literatura.

Muitos historiadores, profundamente ofendidos, cedem ao argumento de que a história se apresenta em uma narração, mas defendem-se dizendo que se deve apenas ao fato de a escrita ser o instrumento mais útil para passar o conhecimento histórico.

De qualquer forma, não podiam estar mais apegados a uma visão ultrapassada desnecessariamente. Sendo a história um discurso, e cada obra sendo um conjunto orgânico de idéias e significações, ela não é outra coisa além de literatura. A história já pretendeu possuir uma objetividade, mas falhou miseravelmente. Apesar de continuar atada às fontes, não podendo transgredi-las, ela se pauta pela capacidade discursiva e pelas questões do sujeito histórico que a escreve.


Nossa visão de mundo pela literatura

Verificar o poder da história de formar o conceito de realidade nas pessoas para logo após chamá-la de literatura permite lançar um novo olhar sobre  a dinâmica da nossa visão de mundo e imaginar alternativas. E se… puséssemos outra literatura no lugar da história?

Com um pouco de criatividade, e para o horror dos conservadores, é possível conceber um mundo futurista onde a noção de mundo fosse criada pela produção de livre imaginação dos cineastas, literatos e poetas. Exercício mental que poderia ser poupado pela lembrança de que durante a maior parte do tempo da humanidade as coisas caminharam desse modo. Xamãs, cosmogonias e outras literaturas detiveram esse poder por muito tempo. A História é uma invenção recente, e continua sendo uma literatura, ainda que atada às fontes e submetida a uma avaliação interna entre os historiadores.

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1 comentário

Arquivado em epistemologices, história

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