Apologia de Clio

ou Pra quê História?

Nos idos do positivismo, caso argüíssemos algum historiador sobre o porquê de ter escolhido História, ele, orgulhoso do seu papel, diria: para aumentar o conhecimento da Humanidade, pesquiso o passado através dos documentos!

Obviamente uma resposta insatisfatória em nossos tempos, afinal, sabemos que não podemos realmente conhecer o passado, conhecemos as imagens que criamos dele.

Perguntamos, então, a um contemporâneo foucaultiano, que após se ver obrigado a dar uma resposta, nos diria: utilizo os monumentos do passado para escrever uma história que mostre as descontinuidades entre os tempos para apresentar a alteridade, uma imagem do mundo diferente da do mundo atual!

Uma boa resposta, de fato, e facilmente ficamos tentados a aceita-la. Mas há só um pequeno problema. Apesar de ser um bom projeto mostrar às pessoas que aquilo que elas crêem ser real, natural e que assumem como dado não ser nada natural, pois foi construído na sociedade durante o tempo, não é uma resposta adequada à pergunta. Essa é a proposta de um grupo específico e nos diz como utilizar a instituição História, e não realmente nos diz pra quê existe essa instituição.

A idéia de que há uma história se desenvolvendo numa temporalidade está naturalizada, tão naturalizada que nosso foucaultiano desnaturalizador não a estranhou e acha que de fato há um passado.

Vou contar um segredinho: o passado não existe. Isso mesmo! Não existe. Ou você já encontrou com D. Pedro II por aí, comprando pão?

Surpresa! D. Pedro II não existe! Ele é apenas coisa que põem na sua cabeça!

Surpresa! D. Pedro II não existe! Ele é apenas coisa que põem na sua cabeça!

Ah, mas você me diz que pode provar, que há documentos, que existem fotos e monumentos nos quais você usa tecnologia para ver a datação e puf! Realmente existiu um D. Pedro II, na época do Brasil Império.

Com efeito, você pode realmente ser convencido por tão grande quantidade de indícios que, de acordo com as atuais regras de prova, são lógicas e constituem evidência. Entretanto, há de convir comigo quando digo que podem até remeter a algo que pode ter sido, mas de uma forma ou de outra não existe [mais]. Não existe.

Fosse um passado reconhecível com o presente (à la positivismo) ou um passado áltero e misterioso (à la “foucaultianismo”), ele não existe em outro lugar que o espaço sináptico dentro do seu crânio!

E como ele chegou aí, ahn, ahn? Ahá! A História! =D

Ela foi o instrumento usado para inserir D. Pedro II no universo de significações das pessoas como parte do que ocorreu no passado, mas não se limita a isso. A História abriu todo um campo de significação da realidade que as pessoas compartilham, pois introjeta não só as idéias nas pessoas, como introjeta também as pessoas no mundo!

A História constrói uma temporalidade dentro da qual as pessoas se vêem inseridas.

Esse conhecimento, proporcionado pela História, que estrutura o estar no mundo, é similar ao conhecimento estruturador que o corpus de mitos proporciona: molda as psiquês, padroniza representações dispositivas ou, em outros termos, socializa as pessoas.

A singularidade da História é que ela age assim ao fazer um tratamento discursivo sobre monumentos do passado!

Defrontamo-nos então com a pergunta inicial: qual a função do historiador? E repletos de arrepios somos obrigados a responder: criar mitos.

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