Precisamos falar de Platão

Bom, gente. Esse é um texto que vem rondando o backstage da minha mente há algum tempo. Se for contar, acho que faz alguns anos. Ele insistia em urgir, mas nenhuma forma foi encontrada e, assim, ficou pra lá. Aqui, do lado do escritor, rola o dilema habitual de sempre: enterrar os talentos (como na parábola) ou oferecer o fígado para as águias (como na mitologia)? Cortando o melodrama e com decisão tomada, além das boas-intenções na mão: vamos ao que interessa.

EXPERIÊNCIA UNIVERSITÁRIA

Ser calouro em uma universidade como a UnB significa muitas coisas. O ambiente universitário é encarado geralmente num momento cedo da vida e se revela como um mundo novo, com regras próprias que precisam ser descobertas à sua maneira. Isso significa, na prática, que os calouros se metem em muita encrenca.

A encrenca pode ser encontrada em algum trote. Que tenha lá seus graus variados de violência e comunhão grupal, como sempre. Ou também pode ser encontrada em um batismo etílico. Que tenha lá seus diferentes graus de entrega para sentimentos de auto-aniquilação ou de vaidade.

Sorte ou azar, o meu caso foi diferente. Uma amiga muito próxima que entrou pouco antes de mim na universidade me ciceroneou pelos sete círculos da UnB. Isso me salvou de muitas curvas perigosas mas também me colocou em outras, como vamos ver.

Crescemos ambos uma infância num ambiente intelectual fértil em leituras de ficção. Conan Doyle, Pedro Bandeira, Tolkien, Machado de Assis, Rowling… E muitos outros escritores, sendo grande parte deles autores de fantasias. Para resumir: éramos do tipo para quem mitologia é um interesse flamejante.

Assim foi que quando fui fazer a matrícula no meu primeiro semestre, minha psicopompo universitária me passou a dica: ia ser ofertada uma matéria chamada Mito e Filosofia. Vendo esse nome, óbvio que eu ia fazer! Uma matéria com um nome assim certamente deve ser fascinante. Tinha muitas expectativas, parecia a concretização de um sonho!

Mal sabia o que me aguardava.

Lembra que eu falei sobre calouro procurar encrenca? Essa foi a minha encrenca. A matéria se chamava assim por alguma questão burocrática da universidade. Na realidade ela era uma matéria da pós-graduação da Filosofia e seu nome verdadeiro era A Verdade em Platão. Um professor de uma universidade italiana que estudava Platão há algumas décadas tinha sido convidado a dar metade das aulas do curso, as aulas seriam gravadas pela UnBTV, etc e tal. Isso tudo sem mencionar que ela durava as quatro horas ininterruptas após o horário do almoço das segundas-feiras. Pira nisso.

UM GUIA PRÁTICO PARA LER PLATÃO

Com alguns trancos pelos barrancos: sobrevivi. E ainda que não possa dizer que aquilo que vou falar seja fidedigno ao pensamento dos professores que tive, parte do que eu consegui absorver dessas aulas me deu ferramentas fundamentais na minha atual leitura de Platão. E é o que vou tentar compartilhar com vocês.

Para quem está chegando agora, Platão é um cara que viveu na Grécia Antiga que tinha uma escola de filosofia. É famoso e notável por seu impacto cultural constante em toda a “história ocidental” devido aos seus textos, que foram copiados e lidos através dos séculos. Eles são, basicamente, diálogos entre personagens que discutem sobre diversos assuntos e eram utilizados como um modo pedagógico de Platão para trabalhar filosofia com seus alunos.

Esse último ponto é algo muito importante e deve ser levado em consideração na hora de ler algum livro platônico. Seus textos não são dogmas ou tratados filosóficos, ou seja, com eles Platão não escreveu um panfleto defendendo determinada opinião. Nos seus livros, personagens diferentes (que estão em um contexto específico) interagem entre si discutindo ideias e defendendo pontos de vista diferentes.

Isso faz com que a afirmação de que “Platão pensa assim”, ou de que “Platão pensa assado” se torne sempre uma afirmação muito perigosa para quem faz. Porque o que temos do Filósofo Grego são seus textos, e, assim, Platão sempre consegue escapar pelos nossos dedos. Por quê?

Primeiro porque em nenhum dos seus livros ele é um personagem que emite uma opinião e a defende. Ele só aparece em um diálogo, e brevemente. No diálogo que narra a morte de Sócrates é citado que apenas Platão não estava lá para assistir.

Segundo, porque mesmo Sócrates (que é personagem de muitos diálogos e foi “mestre” de Platão) não pode ser considerado o emissor da verdadeira opinião platônica. Ele é utilizado como o motor que dá movimento aos diálogos, apresentando pontos contrários, e não sustenta uma opinião única e coesa quando se considera os livros entre si, e, às vezes, mesmo dentro de um único texto. E o mesmo para os outros personagens. Sendo bem explícito, pegar o que um personagem disse e afirmar que é o que Platão pensa é a mesma coisa que pegar uma fala de Voldemort e dizer que é o que pensa Rowling. Complicado, né?

FILOSOFIA É A BUSCA DA VERDADE

Óbvio que todas essas discussões ficcionais não foram escritas em vão. Elas acabam por causar uma impressão naqueles que leem. Essa talvez seja a verdadeira razão de ser desses textos. MAS… antes de prosseguir, vamos ter que aprofundar aqui com um pouco de linguística.

Primeiro. A melhor tradução para a verdade (aletheia), em grego, tem a ver com desvelamento. Tirar o véu, perceber algo sem barreiras. Esse é o significado da palavra inteira, uma análise das partes que a compõem faz a associação desse desvelamento a um desesquecimento, uma vez que a=sem + lethe=esquecimento. Segundo. O processo de ensinar (e, por conseguinte, de aprender) é o processo da maiêutica, que é aquilo que a parteira faz com a mulher grávida. Tudo acontece dentro de quem aprende: a parteira está lá pra ajudar. Terceiro. A aporia é fundamental no processo desse aprendizado/desvelamento. Aporia (a=sem + poria= caminho) é a palavra que designa o momento em que a cabeça (intelecto, raciocínio) fica sem saída e não consegue repousar em uma afirmação confortável. O melhor jeito de explicar essa paralisação é pensar nos koan do Zen, mas se você ler algum diálogo platônico você vai identificar a construção de várias situações onde não cabe nem “sim”, nem “não”. Neti neti.

Agora recapitulemos. Para que Platão colocaria personagens para discutir? Só para que um deles vencesse a discussão e fosse o fodão portador da verdade?!

ÁGUA PLATÔNICA

Com seus diálogos, Platão aponta pra Lua. A Lua não está no dedo que aponta, mas quem o segue pode vislumbrar a Lua. Ou não. 🙂

Bruce Lee ensinando como ler Platão.

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