Hackeando novos olhares pela cidade

*Texto publicado originalmente no Jornadas de Agora em 19/04/14.

Há alguns dias fui apresentado a um jogo que desconhecia. Um jogo de realidade aumentada, como diz na sua autodescrição. Por estar relacionado com as empresas Google, e por utilizar a localização do GPS, fiquei um pouco ressabiado. Minha primeira reação foi de desconfiança. Mas é de curiosidade que morrem os felinos e eu, então resolvi experimentar.

O Jogo

A história de Ingress mobiliza elementos do imaginário dos teóricos da conspiração contemporâneos. Ao entrar no jogo somos apresentados a duas facções distintas e é necessário decidir qual delas se alinha com nossa filosofia de vida pessoal. Uma delas é a Resistência, que quer lutar contra a invasão (ingression) e escravidão da humanidade, e a outra são os Iluminados (Enlightened), que almeja a evolução dos seres humanos. O passo seguinte no jogo é descobrir a movimentação nele e os objetivos.

Bem, dentro de Ingress existe uma energia – chamada Matéria Exótica – que vaza para o nosso mundo através de portais. Esses portais são encontrados pela função do GPS do celular e eles coincidem com monumentos, obras de artes ou outras construções humanas de destaque. Isso significa que para encontrar os portais no jogo, você tem que se deslocar materialmente até uma estátua ou praça, enquanto está conectado ao aplicativo.

Mosaico de azulejos que é um dos portais de Matéria Exótica.

Uma série de possibilidades se abre a partir daí. Dentro da ficção do jogo, você interage com os portais, hackeando-os para extrair itens deles, “colonizando-os” para a sua facção (posicionando ressonadores da sua equipe), e até estabelecendo ligação entre dois ou mais portais da sua facção. Três portais linkados formam uma área (campo de controle) que delimita a influência da sua equipe sobre as Unidades Mentais (pessoas) que estejam dentro do perímetro. Os adeptos de diversas Teorias da Conspiração entram em excitação interna com isso.

A Experiência do Jogo

 

Ingress tem uma grande capacidade de viciar os jogadores. Talvez parte da explicação esteja na possibilidade de experimentar com o corpo (e na própria cidade em que se mora) a ficção, o jogo (a imaginação). Outra parte da explicação do sucesso entre os jogadores está na captura do sentimento de cooperação que acontece.

Isso se dá pela interação com os outros jogadores, os chamados agentes. Há um grupo do qual você faz parte, o que cria a tendência para a formação de uma rede de solidariedade dentro do jogo. Afinal, muitos agentes estão dispostos a ajudar os novatos, por solidariedade e por se beneficiarem disso. Também, há um inimigo contra o qual batalhar. O que é capaz de mobilizar tanto quanto ter um grupo com o qual contribuir.

A vontade de contribuir também pode ser exercitada ao se identificar e sugerir novos portais, e aí há um misto de orgulho e doação ao fazer com que aquele graffiti pelo qual você passa todo dia seja reconhecido e mapeado. todas essas ações são devidamente recompensadas, claro. Além de níveis a serem conquistados há medalhas para quem alcança diversas marcas. Mais de um sistema de recompensa garante um vínculo maior do jogador, que pode almejar mais conquistas.

Aqui não podemos esquecer que esse jogo gera muitas informações e dados que – todos sabem – são muito valiosos hoje em dia. Como o Norte, o Google se lembra e basta ser um pouco criativo para encontrar utilidade para essas informações. Nem que seja alimentar e evoluir o Google Maps e o Street View. Saberá Deus mais o que pode ser feito, ou como podem ser vendidas essas informações.

De minha parte, fiz descobertas muito surpreendentes no jogo. Você sabia que existe uma estátua de JK sentada num banco no Setor Hoteleiro Norte? Ou que existem mosaicos de cerâmica na 415N? A cidade está cheia de arte e pequenas descobertas assim são deliciosas! Ainda que pareça meio bobo, explorar novos cantos da cidade – ou encontrar um segundo olhar sobre cantos já conhecidos – pode ser bastante inspirador.

Se você resolver experimentar o jogo, apenas tome cuidado ao andar nas ruas.  Aparentemente um jogador já foi atropelado enquanto jogava, o que não é o único risco. Jogar enquanto se dirige é um perigo real. Além da possibilidade de roubo, afinal, o jogo roda em smartphone, tablet ou similar. Quando se joga, a pessoa acaba zanzando um pouco distraída com o aparelho na mão.

foto de thiago dornelles

Thiago Dornelles não é exatamente um historiador. Acredita de verdade que ideias possuem frente e verso no mesmo contínuo, além de extremos conectados. Sempre precisa experimentar para ver se aprende, por isso escreve essas fitinhas.

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