Animações Disney e o termômetro dos tempos

*Texto publicado originalmente aqui em 22/02/14.

Eu não sei quanto a vocês, mas o recente lançamento de Frozen, uma aventura congelante mobilizou emocionalmente várias jovens amigas minhas. Talvez por se tratar de adolescentes (ou pós-adolescentes) que cresceram embaladas por musicais do estúdio. De toda forma, algo nesse filme aconteceu que um pouco da magia nostálgica da infância delas foi revivida.

E elas não parecem estar sozinhas. Uma busca breve no Youtube revela infindáveis resultados com versões, interpretações e montagens envolvendo o mais novo filme da Disney. Algumas características do filme saltam aos olhos de quem o assiste: ele faz a emancipação da mulher um ponto pacífico.

Na animação somos apresentados a duas irmãs que são princesas de Arendelle, um país fictício de inspiração norueguesa. De temperamento oposto, o relacionamento das irmãs Elsa e Anna é o grande motor da história: o afastamento, a busca e a reconciliação de ambas vão guiar a aventura pelos seus altos e baixos até a resolução dos conflitos.

Essa e outras características fazem desse filme o marco de uma nova tendência nos estúdios Disney. Em termos de simbolismo e de representação do feminino, é possível delimitar três períodos claramente distintos, sobre os quais sobrevoaremos abaixo.

2013 e a luta dos movimentos sociais

A irmã mais velha, Elsa, é detentora da habilidade de criar e controlar gelo. Devido a acidentes com esse poder na infância, ela acaba por receber uma educação limitadora e repressiva tanto de suas habilidades, quanto de sua vida emocional. Conforme ela cresce, o processo passa a ser uma censura interna que eventualmente se torna insustentável.

Isso leva a um processo de libertação da personagem, que encontra consonância no lado de cá da tela, entre os expectadores. E, assim, o empoderamento de Elsa dramatiza também os anseios de liberdade das minorias sociais (mulheres, gays, negros etc) e da parcela da juventude estadunidense que se sente deslocada e é público-alvo de uma infinidade de filmes norte-americanos. A sequência se desenrola em meio a uma canção, aonde podemos ver o surgimento da Rainha da Neve, confira:

Quem quiser a versão em português pode clicar aqui.

Nesse filme, a Rainha da Neve não será a vilã. Ela está mais próxima de uma diva da cultura pop: poderosa, elegante, sombria. E formatada para angariar fãs entre pessoas de situação fragilizada. Sua relação com a irmã expansiva e impulsiva rende uma cena de metalinguagem com as outras princesas Disney: Elsa proíbe a loucura de Anna casar com um homem que recém conheceu.

Talvez parte do fascínio despertado por Elsa se deve a esse flerte com o lado das trevas. De toda forma, a fórmula do seu sucesso não foi descoberta de primeira. Foi necessário o experimento com algumas outras candidatas (A Princesa e o Sapo, Valente, Enrolados) a esse cargo de ícone animado do feminismo. Nenhum com tanto êxito.

Feminismo? Sim. Mas no filme também está presente o ativismo homossexual, na dúbia cena em que mostra a família do vendedor Oaken. Será composta por um casal de homens e seus filhos? (confira o ponto cinco nessa lista de motivos que fazem de Frozen o filme mais progressivo da Disney)

Estamos em 2014, o ano posterior ao lançamento do filme, e em pleno processo de visibilidade dos movimentos sociais como um todo. E Frozen constrói uma infinidade de marcos e símbolos nesse sentido.

O romantismo e os anos 90

Durante os anos 90 aconteceu o que foi chamado Renascimento Disney. Após a morte do fundador Walt Disney (e do seu irmão), os estúdios sofreram um declínio em sua produção e audiência. Pelo menos até o finalzinho dos anos 80, quando começaram a produzir animações de histórias mais conhecidas e contos de fadas (Aladdin, A Bela e a Fera, O Corcunda de Notre Dame).

A nova fórmula do sucesso de então era uma pitada de Jornada do Herói (bem estabelecida com a geração Star Wars George Lucas em Hollywood). Acrescentando um pouco das formas de outras culturas numa proposta multiculturalista quase exótica e globalizadora. Mais o relacionamento amoroso de um casal carismático, para formar o bojo da trama.

Se, por um lado, isso faz surgir músicas quase bregas de românticas também acrescenta uma camada simbólica aos filmes. Não são meras histórias sendo animadas, é a representação de diversos processos psicológicos sendo encenados. Assim, psicanalistas e psicólogos analistas conseguem deitar os filmes no divã e trazer deles suas mensagens arquetípicas. Do hamletiano Rei Leão até a Bela e a Fera. Afinal, como não ver na redenção da Fera a junguiana integração da Sombra?

Alegorias de Walt Disney

É certo que havia simbolismo e havia romances também nas primeiras animações do estúdio. Mas não dá pra enxergar o romantismo meloso dos anos 90. Nesse primeiro período as interações princesa-príncipe eram muito mais escassas durante a trama. Havia amor e havia salvamentos, claro. Porém, em mais de uma história as princesas dormiram até serem despertas por um príncipe galante.

E aí que está a grande diferença entre as princesas Disney. Nesse primeiro momento, as histórias eram um tanto mais alegóricas em seu simbolismo. Conceitos, qualidades e processos se vestiam de personagens e interagiam na história e em seu subtexto. As chaves são dadas pelos símbolos das tradições mágicas e místicas ocidentais, como a astrologia ou cristianismo místico. Assim, os Sete Anões são nomeados em vista às qualidades dos sete planetas da astrologia tradicional (ou os sete pecados capitais), e a princesa adormecida ganha um significado transcendente.

À guisa de conclusão

E de bonus track fica esse vídeo. Nele, fãs da Disney põem para interagir algumas princesas do estúdio, o que acaba na conversão delas ao feminismo e à inevitável quebra de estereótipos femininos. E serve também para ilustrar todo o texto em retrospecto!

foto de thiago dornelles

Thiago Dornelles não é exatamente um historiador. Acredita de verdade que ideias possuem frente e verso no mesmo contínuo, além de extremos conectados. Sempre precisa experimentar para ver se aprende, por isso escreve essas fitinhas.

Thiago Dornelles publica a coluna “Fitinhas de Moébio” no sábado.

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