Entre Pijânios, Saias e Bermudas

*Texto publicado originalmente aqui em 09/02/2014.

As temperaturas estão aí, como habitualmente, batendo todos os recordes. Assim, os moradores das regiões mais quentes acabam criando seus artifícios para lidar com o calor. Ar condicionado, saias, tecidos leves, colarinho frouxo, garrafada de água no rosto, cada um desenvolve o seu conjunto particular de meios de sobrevivência.

A situação fica mais complicada para aqueles que têm que se submeter a algum código de vestimenta, como é o caso dos usuários de terno ou de roupas sociais em geral. A obrigatoriedade do terno, ou a versão suavizada que é a obrigatoriedade de calças (compridas), é fruto da herança (ou transposição) de códigos vestuários incompatíveis para as regiões tropicais.

Pensando em tornar compatível a roupa que se usa com o clima que se vive, algumas pessoas se organizaram e formaram o movimento #bermudasim. Pode parecer piada, mas o movimento conta com um site no qual você encontra os 10 mandamentos do uso da bermuda (dentre os quais o veto às estampas florais) e também tem a possibilidade de recomendar o email do seu chefe (anonimamente) para que a galera tente convencê-lo a ceder ao movimento.

O #bermudasim é muito significativo e recebe o meu total apoio. Talvez a conjuntura “astrológica” seja mais propícia agora, porque, na verdade, os questionamentos que ele traz são mais antigos. Não podemos esquecer que há algum tempo atrás vigorava aqui o código do paletó e cartola, imagine! Somos companheiros no sofrimento do calor de muitos homens e mulheres que já passaram por aqui.

De toda forma, faz parte da dinâmica das culturas a manutenção de certos códigos “tradicionais” sem o questionamento ou uma atualização profunda que o compatibilize a cada novo tempo. Esse conjunto de elementos culturais (estruturados em um código) por vezes se torna como um zumbi: uma casca vazia de significado que anda perambulando inadvertidamente por aí. Esse é o caso de nossas vestimentas decorosas.

Vejamos a cidade de Petrópolis. Uma das razões de ela ter se tornado o segundo lar dos imperadores no Brasil é que, além do afastamento das epidemias do Rio de Janeiro, seu clima mais ameno permitia uma tortura menor dentro das honrosas roupas da Corte.

Por falar em Império, olhe abaixo o registro que a expedição artística francesa no século XIX fez das roupas de festa da Corte, dos negros e de grupos indígenas como os Camacã. Quais roupas parecem mais adequadas ao Rio Quarenta Graus?

As imagens e detalhes de imagens estão presentes nos tomos do livro Viagem pitoresca e histórica ao Brasil, disponível na BN Digital.

Que se pondere a situação de dominação dos negros à época. Eles podiam não ter meios para se vestir da melhor maneira que lhes aprouvesse e, claro, podiam almejar muito bem vestir as roupas de origem portuguesa pelo status que conferiam. De toda forma, a mim parece que as pinturas corporais dos Camacã e os folgados panos da costa utilizados pelos negros se mostram bem mais confortáveis que o traje de gala português, considerando o nosso clima. Então, a pergunta: qual das opções foi a escolhida para sinônimo de garbo nos trópicos?

Bingo. Do Império vamos dar um salto e visitar um cara que foi solidário ao sofrimento dos calorentos no Brasil. Um visionário, um louco, um comunista. Todas essas alcunhas são inadequadas para o nosso personagem, melhor chama-lo pelo nome: Jânio Quadros. Em suas viagens internacionais ele se deparou com o traje safári usado na Índia, por herança da administração inglesa no território, e se inspirou para usa-lo como traje presidencial de serviço.

Na verdade, o serviço foi dado para as más-línguas, que puderam se fartar em cima da imagem do presidente “descontraído”. Até maldaram um nome para o traje: pijânio. Assim o projeto do presidente foi midiaticamente ridicularizado e o questionamento do vestuário teve de ser adiado (esse blog disponibilizou fotos do presidente de traje safári, quando condecorou o astronauta Yuri Gagarin).

Tivesse a ideia vingado naquela época, o desenvolvimento de alternativas elegantes (e plausíveis para o calor) teria certamente evitado que a portaria de um prédio no Centro do Rio de Janeiro barrasse a entrada de embermudados no local. Essa não é uma conduta exclusiva de tal portaria, é um procedimento que ocorre em vários outros lugares pelo Brasil a fora. O que essa portaria específica não estava esperando é que um bravo ilustrador se metesse pela brecha no regulamento e fosse de saias para o trabalho.

O fato curioso, que pode servir para o divertimento, na verdade está trazendo a tona o questionamento tão adiado. Como se vestir em tempos de calor?

foto de thiago dornelles

Thiago Dornelles não é exatamente um historiador. Acredita de verdade que ideias possuem frente e verso no mesmo contínuo, além de extremos conectados. Sempre precisa experimentar para ver se aprende, por isso escreve essas fitinhas.

Thiago Dornelles publica a coluna “Fitinhas de Moébio” no sábado.

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