Precisamos falar de Platão 2: a Educação

Dentre os diálogos de Platão, a República é um dos mais influentes e conhecidos. Considerando o ditado que diz que toda a História da Filosofia é uma sucessão de notas de rodapé da obra de Platão, bem se pode imaginar que a República tenha algo a ver com isso. Isso porque ela fala sobre tudo um pouco e deixou impacto não só na filosofia mas em outras áreas como a teoria política, epistemologia e educação, entre tantas. É nesse diálogo que está o Mito da Caverna.

Para um leitor moderno, ler a República é como ler o registro de uma conversa de bar. Vários personagens conversando e especulando, criando cenários e possibilidades dentro da própria imaginação. Durante o debate, eles chegam a um modelo ideal de sociedade, com regras próprias de governo, de organização social, de acasalamento e de educação. Quem nunca viu uma coisa similar acontecer quando vai a bares com os amigos?

Educando vários tipos de inteligência

Na versão platônica da conversa de bar, os personagens discutem a sociedade perfeita (Kallipolis, cidade bela) e têm que encarar um problema fundamental com o qual nos digladiamos até hoje: a educação. Se hoje em dia discutimos a extensão do currículo de conteúdos, a visão que esses personagens têm da educação é bem diferente. Eles chegam à conclusão de que existem diferentes formas de aprendizagem, levando em consideração os três diferentes “elementos da alma” humana (aspectos da vida humana).

Os três aspectos da vida humana seriam: os desejos (corpo físico), a emoção e a razão (intelecto). O corpo deveria ser ensinado através da ginástica, algo como uma educação física da época. As emoções poderiam ser ensinadas pela música, uma vez que seria necessário tomar cuidado com uma educação religiosa que prejudicasse mais do que ajudasse na educação do sentimento. E, por fim, quando falam da razão, os personagens apresentam um problema subjacente, que seriam os dois tipos de aprendizado possíveis: o aprendizado da opinião (em grego doxa) e o aprendizado da sabedoria (em grego sophia). Segurem essa ponta aberta que ela vai fechar mais na frente.

Esses três níveis (e suas subdivisões) são explorados de outras formas pelos personagens, que entram na discussão de como se dá o aprendizado de cada parte. O corpo aprenderia com a repetição e com a prática. A emoção aprenderia não só com as harmonias da música, mas também com as histórias que contam (lembrando sempre do perigo sobre o mau ensinamento sobre os deuses). E o terceiro ponto, que era dividido em dois, acaba sendo melhor explorado agora. O aprendizado intelectual é o que se aprende com a razão discursiva, com as analogias, com as ciências e com o entendimento quase técnico das coisas (dianoia). O outro aprendizado acaba se revelando não uma subdivisão do terceiro, mas verdadeiramente um quarto nível de aprendizado. Que é a busca/percepção da essência (noesis), a Verdade-Sabedoria.

Esse é o ponto onde se perdem a maior parte das interpretações de Platão. O quarto nível é o aprendizado de quem trilha a filosofia. A questão é que hoje em dia usamos a mesma palavra para falar de outra coisa. Então a gente acha que entende o que está sendo dito, e pensa que capturou Platão. Mas, como água, ele escapa por nossos dedos.

Você já deve ter ouvido falar da Alegoria da Caverna. Nela as pessoas estão acorrentadas dentro de uma caverna e toda percepção que têm da realidade são as sombras que se formam nas paredes. Alguém que por ventura se solte e experimente o mundo para além da caverna tentará compartilhar a liberdade com quem nunca saiu e, por isso, enfrentará todo tipo de desafio. Descrever para os acorrentados o mundo lá fora é suficiente? Afinal, quem tá lá dentro está muito bem, obrigado, tirem esse louco daqui.

A parábola ilustra o tipo de aprendizado do nível quatro – aquele que não cabe no conhecimento intelectual/discursivo – e a dificuldade de comunicá-lo. Isso mostra que o conhecimento discursivo do nível três é importante e precisa ser dominado, mas que ele é limitado, assim como os outros dois tipos de conhecimento, separadamente, também são.

Dessa forma, o conhecimento do quarto nível não pode ser aprendido contando ou ouvindo outra pessoa contar. Se fosse diferente, Platão não teria se esforçado tanto construindo diálogos na tentativa de, através desse jogo de espelhos, tentar contrabandear alguma experiência da Verdade. Teria logo escrito um dogma ou um tratado para que cada um soubesse a Verdade sem erros e dúvidas e não tivesse o trabalho de buscar por si mesmo.

Normas ABNT para essa situação.

 

Se não é possível falar sobre, então não falemos

¯\_(ツ)_/¯

Inteligências Múltiplas

Quando olhamos a discussão que esses personagens travam, é um pouco assustador quando comparamos com a educação dos nossos tempos. Temos, nas nossas escolas, alguma prática de educação física, temos classes dos mais diversos conteúdos científicos/intelectuais. Mas cadê o diacho da educação do sentimento?

Não que nossa educação física realmente nos ensine como usar nosso corpo. Saímos da escola geralmente sem saber como sentar, quanto mais saber dos reais limites e possibilidades do nosso corpo. É mais fácil sairmos distanciados dele, condicionados a não habitá-lo completamente.

Agora, com relação à educação do sentimento, é até difícil falar de coisas para as quais temos pouco referencial. Mas sua ausência está aí: nos assombra nos noticiários, nos livros de autoajuda, no surgimento do coaching e, ousaria dizer, na persistência do mito do amor romântico.

Parece pouco. A tragédia está em nossa vida cotidiana pessoal! Que instrumentos nós temos para lidar com o medo? Com a rejeição? Como nos aproximamos de alguém de luto? O que fazemos quando estamos felizes?

Hahaha! Adoro essa música!

Como (não) educar o sentimento em três passos

Os personagens de Platão já advertiram: educar o sentimento através da educação religiosa pode ser uma furada. Não que não existam (ou não tenham existido) religiosos capazes de demonstrar como a empatia pode ser exercitada. Mas a possibilidade de aulas religiosas decaírem para catequese de dogmas – ou para coisas piores como geração de traumas e perpetuação de ódios – é muito grande. Olhe para a atuação da bancada religiosa no Congresso e teremos um termômetro de como aulas assim podem ser um tiro pela culatra.

Outra forma de experimentar a empatia é através de histórias. Ficcionais ou não, musicadas ou literárias: já não faltam provas de que podemos viver a experiência de outros e provar maneiras diferentes de agir. No entanto, História e Literatura já estão no currículo há algum tempo. Também as indústrias culturais produzem músicas (e filmes) pra todos os gostos. Assim, não me parece que, por exemplo, a leitura (ou o “rádio” e a televisão/cinema) por si só possam fazer o treinamento necessário para uma inteligência emocional perceptiva e atuante.

A educação da inteligência emocional pressupõe o desenvolvimento de repertório e estratégias para lidar com as próprias emoções, bem como o reconhecimento das emoções em si e em outras pessoas. Entretanto, é difícil estabelecer uma régua moral para medir qual é a fórmula perfeita para lidar com emoções. Me parece, às vezes, ser um desafio de criatividade. Quem me diz que um muro e um bebê de brinquedo vão sempre funcionar da mesma maneira?

You say you want a Revolution

A solução para o problema, uma que abarcasse instituições de ensino público ou a maior quantidade de crianças, não me parece fácil. Se não existe uma maneira de empacotar as questões emocionais – dividindo e escalonando o seu conhecimento –, como as instituições vão conseguir enxergar e lidar com essa urgência? Como escolherão a multidão de mestres para educar todas as crianças que se beneficiariam de uma educação do sentimento?

De toda forma, saber dessa carência já ajuda. E uma ampliação dessa discussão talvez nos deixasse com um grilo atrás da orelha. Um grilo que, claro, sozinho não faz verão, Mas ele não nos permite esquecer e essa é a área da real possibilidade de mudança: dentro de nós. Milagres que venham de fora – venham do Estado, venham de um Mestre – mesmo que existissem não iam nos isentar do trabalho árduo de lidar com essa carência em nós mesmos. Porém, num cenário como o nosso, toda ajuda é bem vinda e nosso tempo aqui é curto. Lutemos, então, ó descendentes de Bharata para sermos capazes de contribuir. 🙂

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1 comentário

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