A sedução das origens

Existem muitas formas de se explicar as coisas do mundo. Mitos, fórmulas físico-químicas e estatísticas sociológicas são algumas das maneiras que os seres humanos encontraram para elaborar uma camada intelectual para as coisas. Dentre essas possibilidades de explicação, a história é uma das que está mais próxima da nossa mão dentro da caixa de ferramentas. Faça o teste você mesmo! Peça para alguém explicar algo e provavelmente essa pessoa começará com um breve histórico da questão.

Isso está relacionado com nossa percepção do tempo e da temporalidade, que é uma marca cognitiva da nossa cultura. Nem todos os povos do planeta percebem e valorizam o tempo como nós. Aparentemente, o Cristianismo católico teve um papel fundamental na construção da importância da história-cronologia para o “Ocidente”. Afinal, o calendário em prática por aqui foi fundado pela única encarnação de uma divindade que é única e que quando veio ao mundo alterou a rota da humanidade (o cordeiro que tirou o pecado do mundo) para sempre, amém. Esse calendário reforça o papel da cronologia sobre outros tipos de temporalidade, como a temporalidade cíclica (das estações, por exemplo). O que não significa que eliminou de todo outras formas de contar o tempo, e o nem o processo que chegou onde estamos se realizou de maneira simples. Quem quer iniciar essa investigação pode procurar os escritos do Le Goff, ele tem reflexões interessantes a expor.

A sereia

Sereia de um Bestiário com extratos do Giraldus Cambrensis sobre pássaros irlandeses, Inglaterra, séc XIII, f. 47v.

Sereia de um Bestiário com extratos do Giraldus Cambrensis sobre pássaros irlandeses, Inglaterra, séc XIII, Harley 4751, f. 47v.

Explicamos a história das coisas a torto e a direito, certo? Mas, how deep does the rabbit hole go? Até onde cavamos para contar a origem de alguma coisa? Quão longe vamos em nossas explicações?

As perguntas acima escondem uma charmosa sereia que nos seduz a buscar o mais antigamente possível, sempre. E, sejamos sinceros. Podemos encontrar a origem de qualquer coisa tão longe quanto a nossa imaginação permitir. Tanto por nossa capacidade de eloquência, quanto por similitudes que seres humanos de qualquer época carregam simplesmente por serem seres humanos (mamíferos bípedes vivendo no mesmo planeta Terra etc e tal).

Assim, acontece com frequência de começarmos a falar sobre coisas que são completamente diferentes como se fossem a mesma coisa. Simplesmente porque tudo está sempre em constante mudança e chega um ponto que mudou tanto que passa a ser outra coisa.

 

Até aonde ir?

Tudo depende de nossas intenções nessa busca da continuidade no tempo. Por exemplo, para alguém que queira estudar a Grécia Antiga, vale muito a pena encará-los como um povo oriental do qual não somos a civilização herdeira. Porque a maior parte de nossa relação com a Grécia Antiga foi inventada por nós mesmos no decorrer do tempo. Nós gostamos do que eles criaram e dizemos: “temos que ser filhos desses caras!”; e aí falsificamos nossa percepção deles, projetando nossa imagem no passado.

Dentro do campo acadêmico da História há discussões e posicionamentos com relação ao tempo de duração dos processos históricos. Há quem valorize os momentos de ruptura (quando uma coisa vira outra); há quem enfatize a percepção da conjuntura de processos momentâneos com os processos de médio e longo prazo; há quem foque na fotografia do momento e os diferentes processos brigando pra vencer (sem considerar o spoiler de já sabermos quem venceu). Tudo isso temperado com nossa impossibilidade epistemológica: nossa incapacidade de alcançar uma Objetividade, como se fosse possível escapar de nós mesmos para contar histórias.

O glamour da Grécia

Voltando à Grécia Antiga. Ela é considerada o berço da Civilização Ocidental por gostarmos de termos políticos que eles criaram, assim como termos do direito, e, sobretudo, do termo Filosofia. Aqui no blog estamos, aos poucos, mostrando como o que nós chamamos de Filosofia – para ser breve: um processo de abstração, puramente intelectual e por consequência desequilibrado quando se considera o todo do ser humano – é uma má interpretação da filosofia na Grécia Antiga. Sendo claro: nossa Filosofia nada tem a ver com a filosofia dos diálogos de Platão. Na República, aqueles que estão imaginando a cidade ideal decidem que a educação filosófica deve vir após serem masterizadas a educação do corpo, do sentimento e do intelecto. Muito diferente da nossa filosofia que é afastada do corpo e do sentimento e busca apenas o intelecto.

Criações intelectuais existem desde que o ser humano desenvolveu um cérebro com as capacidades linguísticas que possuímos, quiçá até antes. Mas, por exemplo, é impossível fazer com que o Budismo (que possui formulações teóricas e intelectuais) caiba dentro da nossa gaveta chamada filosofia. Ele, afinal, tem técnicas e práticas físicas (sentar-se em lótus, mudras, jejuns etc) e práticas emocionais (cânticos, incensos, devoções, a própria compaixão e amorosidade etc) que o expandem para além dos métodos puramente intelectuais da nossa filosofia.

Ao que tudo indica, essa limitação da Filosofia ocidental (a necessidade do sentimento e do corpo para um pensamento mais equilibrado) está sendo sentida e tem provocado reações variadas. Uma delas, inclusive, incitou as reflexões que originaram esse artigo.

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Arquivado em filosofia, história, na prática, platão

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